quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

O Bigode do Filólogo


Há no Filólogo algo mais que sua filologia. Possui também ele, um bigode. Seria um mero bigode se não fosse o bigode do Filólogo. Seria um mero filólogo, não fosse o seu bigode. Não venho aqui fazer associação àquela tão famosa fábula do mancebo em cujos cabelos jazia poder e que acabou por entregar seu segredo aos cuidados de uma moçoila que lhe virou a cabeça e cuidou em lhe fazer a tosa e cuja moral é: “leve sempre um chicote ao adentrar o universo feminino” (acho que mais para açoitar a si mesmo se por ventura sentir um leve desejo de adormecer nestes domínios). Não! Mas digo que aquele bigode que lhe tapava a boca e parecia querer lhe calar, obrigou o Filólogo a tornar-se verbo ele próprio.
Mas antes de discorrer sobre este tema que muito me fascina, pois quando conheci o Filólogo não foi sua filologia que me chamou a atenção e sim, o seu bigode, devo revelar com que tipo de olhar fiz a degustação do meu objeto de estudo. Pois todos os meu olhares possuem papilas gustativas. Eu, literalmente, “como e bebo” com os olhos e, esse “comer e beber” são mais movidos pela glutonaria do que pela fome ou pela sede e, quando me enfastio, eu vomito, pois o que me deleita é o gosto e não a barriga cheia. Não me agrada uma pança gorda de doces verdades.
Dentre as tantas visões bulímicas que tenho, e tenho muitas, e a todas ensinei a enfiar o dedo na goela e a rir zombeteiramente de si mesmas, para que todas se tornassem cientes de que são tão somente visões e que nenhuma se considere importante demais e acabe por querer ser a única, não encontrei nenhuma capaz de abarcar a imensidão do universo do bigode do Filólogo.
Desde que tomei conhecimento do Filólogo e seu bigode, e não lembro ao certo quando isso ocorreu, pois a sensação que tenho é que sempre os conheci, possuo certa curiosidade a respeito do processo utilizado por ele para fazer suas refeições. Imaginá-lo comendo uma Weisswurst (salsicha branca feita com vitela e toicinho, tradicional da Baviera) é algo tão cheio de impacto que quebra minha linha de pensamento e me joga no Desconhecido e neste âmbito minhas visões não chegam sem confundirem-se. Imaginar uma dama a beijar freneticamente a boca do Filólogo (quantas vezes me perguntei se teria ele uma boca realmente) tem o mesmo apelo, fazem minhas visões calarem-se frente a um non plus ultra para dar surgimento a um nitimur in vetitum, um novo olhar. O olhar do Vidente! Aquele mesmo, que o Guri de Olho Azul que dizia descender dos Gauleses e andava feito mendigo pela França citava como um fator imprescindível para tornar-se poeta. Não me tornei poeta, mas compreendi o bigode do Filólogo. Ou ainda, inventei um sentido para ele, mas não um sentido que me acomodasse. Ao contrário. O sentido criado pelo olhar do Vidente me causa ainda mais assombro por reconhecer a si mesmo como um sentido criado! Eis o meu método! E eis aqui o meu sentido! Um sentido que me destrói!
A estética do bigode do Filólogo se deve a um cuidadoso descuido, pois além de Filólogo e ter um bigode, possuía também uma enfermidade e essa enfermidade lhe arremessava para as alturas, lá onde os ventos são fortes demais para manter um bigode bem composto. Aquele bigode monstruoso, que dava ao Filólogo um aspecto taciturno, sendo ele também um dançarino (mas quem disse que um dançarino deve sorrir? A Kali dos hindus tinha um aspecto terrível e sua dança destruía mundos e era também, o Filólogo, um destruidor de mundos) nada mais era do que a quintessência do processo alquímico entre a filologia (e a filologia entra aqui como representante de tudo que fora apreendido enquanto ser humano neurótico) e a dor causada pela enfermidade (o elemento transformador, que não deixa a acomodação ser implantada). Aquele bigode era a corporificação desta dor, e a essa corporificação deu-se o nome de Amor Fati, a fórmula que engrandece o homem, ou seja “não evitar a dor e muito menos dissimular, mas afirmar. Nem conformismo, nem resignação, nem submissão passiva: Amor”. Essa Dor ou esse Amor a Dor e a tudo aquilo que é, que fez com que o Filólogo passasse a vida na beira de um abismo sem procurar abrigo, dançando perigosamente, implacável, zombeteiro, desdenhoso da própria virtude. Eis o sentido do bigode do Filólogo, inventado por mim, que nem bigode tenho, que nem filólogo sou.



neu